Salve a Seleção. por João Américo

25 de maio de 2026

Torcer pela Seleção em Copa do Mundo era — e faço questão de grafar no pretérito imperfeito do indicativo — um ato patriótico quase unânime. Havia uma época em que o povo brasileiro, do porteiro ao banqueiro, sentia orgulho e esperança ao olhar para o campo. A gente não dizia “o time vai jogar”; a gente dizia “o Brasil vai jogar”. Era o nosso amálgama social.

Mas algo se quebrou, e a recente convocação de Neymar é o sintoma mais claro dessa fratura exposta. A “Pátria de Chuteiras”, imortalizada por Nelson Rodrigues, virou definitivamente o país da bola dividida.

A polarização política, que rachou a nação ao meio nos últimos anos, invadiu o gramado sem pedir licença. A convocação do camisa 10 deixou de ser avaliada por critérios técnicos para ser julgada pelo crachá ideológico. Apoiador declarado do ex-presidente Jair Bolsonaro, Neymar carrega a antipatia visceral de boa parte da esquerda. Em contrapartida, a direita enxergou no atleta uma qualidade adicional para incensá-lo, elevando-o à categoria de mártir conservador.

Não há inocentes nessa jogada. Não por acaso, minutos após o anúncio feito pelo técnico Carlo Ancelotti, o candidato de oposição Flávio Bolsonaro festejou a notícia utilizando o episódio como uma peça descarada de campanha presidencial. A convocação esportiva virou comício.

O estrago, porém, vai além dos nomes; ele atinge o nosso maior símbolo esportivo. A apropriação ostensiva da camisa da CBF por eleitores e simpatizantes do bolsonarismo sequestrou a Amarelinha. Hoje, uma parcela gigantesca de torcedores prefere assistir aos jogos de preto, azul ou sem camisa, pelo simples pavor de vestir o amarelo e ser confundida com um militante partidário na rua. O manto que era de todos virou farda de um lado só.

O resultado dessa miopia coletiva é desolador: o fenômeno cultural mais genuíno do Brasil — o ritual de parar o país para vibrar na Copa do Mundo — perdeu o encanto, o brilho e o seu poder de união.

O desafio da Seleção na Copa não é apenas tático ou esportivo. A verdadeira missão de Ancelotti e seus convocados vai muito além de trazer a taça; eles têm a tarefa hercúlea de tentar reunir, sob a mesma bandeira, um Brasil dividido que desaprendeu a torcer pelo próprio reflexo.

ESTÁ GOSTANDO DO CONTEÚDO? COMPARTILHE

Facebook
Twitter
WhatsApp

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ULTIMAS NOTÍCIAS

31 de outubro de 2026

O BPNCast traz em seu mais novo episódio uma conversa profunda e inspiradora com Lino Portela, assessor especial do núcleo de assessoria política da Prefeitura ...

31 de outubro de 2026

Neste 31 de outubro, o mundo marca o Dia da Reforma Protestante, um dos movimentos sociais, políticos e religiosos mais profundos da história. Em 1517 ...

31 de outubro de 2026

O projeto “O que nasce ao redor do rio” está com inscrições abertas para uma chamada pública de fotografias sobre o Rio Ipojuca, em Caruaru. ...

30 de outubro de 2026

A 2ª edição do Festival Mestre J. Borges, realizado em Bezerros, no Agreste, abriu, nesta quinta-feira (29), as inscrições para o Concurso de Xilogravura 2026. ...

Visão Geral de Privacidade

Este site utiliza cookies para que possamos lhe proporcionar a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas no seu navegador e desempenham funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.