
O terceiro sinal costuma soar nos teatros de ópera para impor o silêncio que precede o espetáculo. No Agreste de Pernambuco, contudo, o sinal que convoca a vida é o sopro do pife e o estalar do zabumba. Se na grandiosa ópera Don Carlo, de Giuseppe Verdi, a estrutura original em quatro atos desenha o peso do destino, o dilema entre o dever e o coração, e a amizade idealista na luta pela liberdade, a conexão com essa obra vem de um lugar muito íntimo. Perguntei ao Maestro Mozart Vieira, o que ele sabia sobre Giuseppe Verdi, e a ópera Don Carlo… “Quando estudei no Conservatório Pernambucano de Música com o professor Padre Silvio Milanez no componente curricular História da Música e na Universidade Federal da Paraíba (UFPB) com o professor Jorge Castor aprendi bastante. Giuseppe Fortunino Francesco Verdi (1813-1901), Italiano apaixonado pela música, foi um compositor de óperas do período romântico, sendo na época considerado o maior compositor nacionalista da Itália e um dos mais influentes do século XIX, assim como Richard Wagner(1813-1883) na Alemanha. Suas obras são executadas com frequência em casas de ópera em todo mundo, transcendendo os limites do gênero, Giuseppe Verdi realmente era um gênio na expressão da palavra. La Traviata, Aida, Nabuco, Rigolleto entre outras são obras fantásticas de Giuseppe Verdi.” vaticinou o maestro.

E em Caruaru, essa genialidade ganha uma partitura real. O paralelo é quase inevitável, mas com uma inversão poética: onde Verdi colocou a tragédia do poder, deposita-se o amor absoluto pelo ofício de reger vidas. Essa missão, em perfeita consonância com o redesenhar da cidade sob o olhar atento e a sensibilidade dos gestores de responsabilidade maior no São João de Caruaru, Rodrigo Pinheiro e Herlon Cavalcanti, agindo intersetorialmente com todo o secretariado, não se limitam a entregar apresentações artísticas ou melhorias urbanas; trata-se de fundar uma nova consciência de atuação política e cidadã, onde a cultura acompanha o desafio da contemporaneidade sem perder seu eixo fundamental: Preservação da Tradição Junina.
De volta ao Maestro Mozart Vieira, dono de um vigor criativo e físico que desafia o tempo, penso em sua atuação numa verdadeira Pentalogia lírica e popular. Primeiro o que aconteceu no Centro Multicultural do Alto do Moura, durante o anúncio da programação festiva. Quando a tecnologia rendeu-se à imortalidade. Sob os olhos marejados do público, a Inteligência Artificial rompeu as barreiras do invisível para promover um encontro que parecia impossível: Onildo Almeida, o próprio Maestro Mozart Vieira e a imagem e voz eterna de Luiz Gonzaga cantando, juntos, “A Hora do Adeus”. A composição de Onildo e Luiz Queiroga ganhou a crueza e a beleza de um testamento cultural, provando que a memória, quando regida por mãos certas, nunca morre, marco o segundo ato dessa ópera das ruas dando-se na imensidão do Pátio do Forró. A abertura dos shows transformou o maior palco da cultura popular em um santuário erudito e profano. A Orquestra de Pífanos de Caruaru, sob a batuta precisa do Maestro Mozart Vieira, desaguou no pátio uma comunhão de percussionistas, coral e pifeiros. Não era apenas um espetáculo; era a consagração de uma trajetória que começou lá atrás, quando o mestre — graduado em Flauta Transversa pela UFPB, em Matemática e Ciências — decidiu que sua melhor equação seria salvar jovens da vulnerabilidade social através da música, eternizando os “Meninos de São Caetano” e a sua própria Fundação. Naquela mesma noite ainda teve a participação especial a convite de Elba Ramalho no show dela.

A terceira parte dessa suíte caruaruense trouxe o inesperado, a fricção perfeita entre o massivo e o autêntico. No Trio Elétrico de Claudia Leitte, em pleno dia das Drilhas, uma representação cirúrgica da Orquestra de Pífanos e do Maestro. Ali estavam figuras icônicas como João do Pife e Marcos do Pife. Cada qual com sua magia e energia própria, mas todos sob o mesmo manto protetor do maestro. E reside aí a maior sua maior genialidade: ele não caminha só. Seu percurso é um arrastão de dignidade que traz consigo dezenas de artistas e mestres que, pela lógica cruel do mercado e pela pressão comercial da atualidade, correriam o risco da invisibilidade. Sob a regência de Mozart, eles ganham as telas, os palcos e os olhos do mundo.
O quarto ato, acontece dia 20 de junho, o Polo Azulão: o show do próprio Maestro Mozart Vieira. O instante de carimbar nas páginas do tempo e da memória afetiva de Pernambuco que a erudição mais profunda nasce do barro, do pife e do compromisso com o outro. Como na ópera, o maestro luta pela liberdade — não de Flandres, mas de cada jovem que descobriu que o destino pode, sim, ser mudado através de uma partitura.

O QUINTO ATO – O FORRÓ GIGANTE
Estes quatro momentos, contudo, são como um prólogo perfeito, uma preparação espiritual para o ápice que está por vir. No próximo dia 27 de junho, o Pátio de Eventos Luiz Lua Gonzaga será o cenário do quinto ato dessa ópera nordestina: o show do FORRÓ GIGANTE. Idealizado pelo Maestro Mozart Vieira, reunindo mais de 50 artistas em uma homenagem à música e aos compositores de Caruaru e do Agreste, exaltando a essência das festas juninas tradicionais.
A caneta do poder público e a batuta da regência artística não se anulam, mas se complementam. O sucesso do Maior São João do Mundo reside justamente no fato de a gestão administrativa abrir caminhos para que os artistas locais brilhem intensamente, do primeiro ao último dia.
















