Trabalho e formas de existência em tempos de metamorfose do mundo. Por Fred Santiago

19 de maio de 2026

A noção de mudança social tem se mostrado bastante inadequada quando se trata de caracterizar as transformações ocorridas no mundo, nas duas últimas décadas. Os impactos de tais transformações, em todos os aspectos da vida social, tem se revelado tão profundos, tão intensos, que, talvez, podemos classificá-los como expressões do que Ulrich Beck denominou de metamorfose no mundo. Diferente da mudança social, que ocorre no âmbito de uma estrutura societária mais ou menos estável, na qual as mudanças transcorrem gradativamente e sem rupturas bruscas, a metamorfose no mundo se caracteriza, fundamentalmente, por transformações profundas, rápidas e com uma intensidade suficiente para colapsar estruturalmente muitos aspectos da sociabilidade atual.

Nesse sentido, pensar algum aspecto da vida social considerando a hipótese de que estamos imersos em um processo de metamorfose do mundo, implica, em primeiro lugar, a consciência de que, todas as tentativas de compreensão da realidade e, consequentemente, suas possíveis respostas, estarão permeadas por um grau elevadíssimo de transitoriedade. Inclusive, conceber a transitoriedade como aspecto constituinte do próprio método que se utilize para a atividade de compreensão do real já é, de certa forma, uma evidência de inserção no fluxo de intensidades que tem caracterizado a metamorfose no mundo, percebendo-se já implicado nesse processo. É, portanto, a partir da hipótese da metamorfose do mundo, que passamos a caracterizar transitoriamente algumas nuances do trabalho na contemporaneidade, em um momento no qual se debate a possibilidade de fim da escala 6×1.

A metástase do capital

 Entre todas as facetas que marcam o capitalismo atualmente, uma em especial tem se mostrado dramaticamente eficaz: trata-se da capacidade devastadora do capital de invadir, colonizar, praticamente todos os aspectos da vida humana. Das atividades esportivas às relações afetivas, da educação às formas religiosas, dos avanços da ciência à percepção temporal, tudo parece ter sido sugado pela necessidade voraz do capital de tudo tornar mercadoria. Não se trata, aqui, de, apenas, mapear “espaços” da vida social dos quais o capital se apropriou. Até porque, uma breve olhadela na história do capitalismo nos mostra que, de um modo ou de outro, esses aspectos da sociabilidade, de algum modo, já haviam sido alcançados pela lógica mercantil desde muito tempo. A diferença, no contexto atual de metamorfose do mundo, se encontra no grau de intensidade da presença do capital nos mais variados aspectos da vida social, configurando-se como um verdadeiro processo de metástase, ou seja, realizando um espalhamento rápido, intenso e total de seus tentáculos sobre o todo da sociabilidade.

No que diz respeito, especificamente, a esfera do trabalho, o processo de metástase do capital vem se materializando de maneira especialmente agressiva: revogação de quase toda legislação trabalhista, destruição dos direitos previdenciários, achatamento dos salários, combate feroz a qualquer tipo de noção de coletividade – expresso, sobretudo, no discurso ideológico do chamado empresariamento de si mesmo – e, mais recentemente, na disseminação em larga escala de formas extremamente precarizadas de trabalho, caracterizadas, principalmente, por jornadas de trabalho muito extensas. No entanto, diferentemente dos processos de ampliação da jornada de trabalho ocorridos em outros períodos históricos do capitalismo, nos quais o aumento da produtividade decorria da manutenção do trabalhador por mais tempo no espaço físico da empresa, sob forte vigilância, ocorre, atualmente, algo bem diferente. Não é que a ampliação da jornada de trabalho, operacionalizada como forma de manter o trabalhador por mais tempo no local de trabalho tenha deixado de existir. Existe, sim! Porém, o capital desenvolveu formas mais sutis de conseguir se apropriar da força de trabalho por mais tempo e, para essa finalidade, foi fundamental a instrumentalização das novas tecnologias digitais.

Em grande medida, foi essa instrumentalização das novas tecnologias digitais para fins meramente mercantis, que possibilitou não só a ampliação da jornada, mas, sobretudo, a intensificação dos ritmos de trabalho, mesmo quando os trabalhadores não estão, diretamente, nos locais de trabalho. Aliás, a própria noção de “local de trabalho” deve ser repensada, no mínio, ampliada. Um breve exemplo, ilustra muito bem essa estratégia atual de ampliação do local de trabalho. Se não, vejamos: os professores da educação básica, atualmente, realizam os registros do seu trabalho pedagógico não mais nos antigos diários de classe, confeccionados em papel. Atualmente, os referidos registros podem ser feitos em aplicativos, que são acessados a partir dos aparelhos de telefone celular. Isso significa, entre outras coisas, que os docentes passaram a registrar suas aulas em qualquer lugar e a qualquer hora do dia, inclusive nos finais de semana e feriados. Assim, no almoço, na fila do banco ou aguardando atendimento em um consultório médico, os professores trabalharão, quase que ininterruptamente. A essa altura, cabe uma pergunta: qual seria o local de trabalho desse professor, uma vez que seu trabalho se espraiou para os mais diferentes espaços de sua vida cotidiana? E em relação a diferença entre seu tempo de trabalho e seu tempo livre, ainda existe?

Em um texto escrito em 1969 o filósofo frankfurtiano Theodor Adorno alertava para o fato de que, no capitalismo daquele período, o tempo livre do trabalhador estava sendo utilizado pelo capital para manipular os trabalhadores a consumirem as mercadorias produzidas pelas indústrias do entretenimento. Na perspectiva adorniana o lazer alienado seria uma espécie de complemento da subsunção do trabalho ao capital. Porém, no capitalismo atual, marcado pelo processo de metástase do capital, a distinção entre tempo de trabalho e tempo livre parece não mais fazer sentido, pois a jornada de trabalho é o próprio tempo da vida.

Essa tomada do tempo da vida pelo capital implicou, entre outras coisas, no surgimento do que Byung-Chul Han chama de sujeito do desempenho, que se caracteriza, sobretudo, por um sistemático processo de adoecimento psíquico, que é uma das formas visíveis do empobrecimento existencial, característico do capitalismo contemporâneo. Esgotado, tomado quase que integralmente pela lógica da reprodução do capial o sujeito do desempenho perdeu, entre outras coisas sua vontade de futuro, no sentido de visualizar um horizonte de expectativa diferente, refugiando-se na “eternidade” do instante presente, obtido através do bombardeio de estímulos disparados pelo smartphone, como bem nos mostra Franco Berardi.

O processo de transformação do tempo de trabalho em tempo da vida, consolida um traço marcante do capitalismo, ao longo de sua história, mas que se agudizou e ganhou outras formas no momento atual. Trata-se da quase total submissão do indivíduo à lógica do capital, que impede o efetivo desenvolvimento dos seres humanos. É o que chamamos anteriormente de “pobreza existencial”. Ontologicamnete, somos intensidades múltiplas; somos potência de viver; somos impulso de criação; somos um horizonte infinito de possibilidades.

No entanto, a expansão dos domínios do capital para as mais variadas esferas da vida humana provocou um efeito devastador para nossa existência. Fomos reduzidos à quase nada, existimos miseravelmente. Atualmente, dormimos e acordamos sob o julgo da lógica do desempenho. Nunca trabalhamos tanto, apesar de todos os avanços tecnológico que, em tese, poderiam diminuir nossa jornada de trabalho. Estamos vivendo, quase totalmente, para trabalhar. Mas viver, é muito mais que isso. Como afirma o filósofo brasileiro Ailton Krenak, “a vida é fruição, é uma dança, só que uma dança cósmica” e o capitalismo quer reduzi-la “a uma coreografia ridícula e utilitária”

A essa altura, podemos compreender que, o atual debate sobre a diminuição da escala 6×1 é algo muito mais profundo do se apresenta comumente. Não se trata apenas de mudar ou não mudar a legislação, gerar ou não gerar mais empregos, de aquecer ou não aquecer a economia. Fundamentalmente, trata-se de discutirmos qual forma de existência queremos para nós e para as futuras gerações, pois existir é muito mais do que estar presente no mundo. Nesse sentido, a possibilidade de superar a pauperização existencial implicada nas atuais jornadas de trabalho representa, também, a possibilidade de voltarmos a pensar em dispormos de um tempo, efetivamente livre, no sentido de que possamos materializar nossas múltiplas potencialidades.

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