
Sou professor mestre em Ciências da Educação e autor de dois livros publicados: Quando a Escola Diz e Não Faz: O Outro Discurso da Escola (Editora Schoba, 2019 – ISBN 978-85-69630-30-2) e Sala de Aula e Práticas Pedagógicas: Compreendendo as Diretrizes Legais e suas Implicações na Prática Docente (Editora Fontinele, 2024 – ISBN 978-65-6871-651-8). Nessas obras, contribuo com reflexões relevantes sobre o cotidiano escolar e os desafios pedagógicos.
Trabalhei no ensino básico e superior, tanto na rede pública quanto na privada. Fui gestor escolar na Rede Estadual de Pernambuco, gestor no Colégio Atual e coordenador pedagógico de diversas escolas particulares.
É este o meu lugar de fala: ocupo o espaço de convergência de múltiplas experiências pedagógicas.
Justamente por conhecer bem — e por dentro — o magistério, a formação de professores e a gestão escolar, sinto-me não apenas apto, mas também eticamente impelido a denunciar os problemas da nossa escola.
Por muitos anos, senti que havia algo estranho em nosso modelo pedagógico. A atitude dos professores, o conteúdo alienante e o sofrimento infantojuvenil — tudo isso me parecia problemático, mas inevitável. Em determinado momento, contudo, comecei a estudar a crítica da educação: de Célestin Freinet e Ivan Illich, de Alexander S. Neill e Pierre Bourdieu, de Mortimer Adler e John Taylor Gatto; a crítica tanto dos radicais quanto dos conservadores. Foi então que consegui formular com precisão aquilo que já intuía: a opressão e a alienação presentes no mundo escolar não são características necessárias do processo pedagógico; pelo contrário, são características contingentes e perfeitamente dispensáveis.
Como formador de professores e, especialmente, como diretor escolar, compreendi que o problema da escola é imenso e de dificílima solução. Tudo parece estar organizado para que o círculo de reprodução das contradições sociais se perpetue. Do currículo insano ao espaço escolar, da formação cultural dos mestres aos seus salários, parece que a escola brasileira foi criada para impedir que a educação aconteça.
O currículo é excessivamente extenso. A partir dos anos finais do Ensino Fundamental e, ainda mais, no Ensino Médio, nenhum professor domina todas as áreas do conhecimento que os alunos são obrigados a dominar. De forma absurda, exige-se das crianças e dos adolescentes que saibam mais do que os próprios adultos que os ensinam. Se aplicássemos aos professores do Ensino Médio todas as provas, de todas as disciplinas, que seus alunos precisam realizar, descobriríamos que, vergonhosamente, quase todos seriam reprovados nas matérias que não lecionam.
Como é possível considerar normal e justo exigir dos estudantes um conhecimento que os próprios professores não possuem? Com que direito os professores submetem seus alunos a um conjunto de avaliações que eles mesmos não teriam condições de resolver?
Além disso, boa parte do conhecimento apresentado nas aulas é completamente inútil para a vida da maioria dos estudantes. Consequentemente, o currículo escolar perde relevância, pois é assimilado apenas para a realização de provas e logo depois esquecido. O verdadeiro currículo da escola é o currículo oculto: o aprendizado de como fingir possuir um conhecimento que não se tem; de como se submeter aos caprichos da autoridade sem questionamentos; de como alienar-se de si mesmo, naturalizando uma situação profundamente artificial.
O espaço escolar, com seus horários rígidos, uniformes, turmas separadas por idade e organizadas, formal ou informalmente, segundo o desempenho acadêmico, além da arbitrariedade de professores e gestores, difere profundamente do espaço de uma sociedade saudável. Curiosamente, assemelha-se mais a fábricas e quartéis. É o currículo oculto em ação, disciplinando corpos e mentes, ensinando a obedecer regras sem sentido, habituando as pessoas à imobilidade por horas e horas e à aceitação passiva do que deveria provocar indignação.
A maioria dos professores não sonhava com o magistério. Frequentemente, a carreira docente é escolhida porque apresenta menor concorrência nos processos seletivos. Isso ocorre porque não é atrativa do ponto de vista salarial. O professor brasileiro está entre os profissionais mais mal remunerados do mundo.
Essa realidade faz com que muitos profissionais da educação tenham acesso limitado à leitura e à produção cultural, reduzindo, muitas vezes, a cultura ao entretenimento de massa. Com os salários que recebem, encontram enormes dificuldades para ampliar seu repertório intelectual. Não podem comprar livros regularmente, fazer cursos ou viajar. Professores com formação cultural limitada tendem a permanecer nessa condição e, consequentemente, podem contribuir para a formação de alunos igualmente limitados culturalmente, em um círculo vicioso difícil de romper.
Como imaginar uma solução para a escola brasileira quando os próprios professores ganham mal e possuem acesso restrito aos bens culturais? Como sonhar com uma educação de qualidade quando, muitas vezes, as referências culturais predominantes são produtos destinados ao consumo massificado, sem maior aprofundamento crítico?
É triste concluir que quase tudo em nossa escola apresenta problemas graves — seja na escola pública mais precarizada, seja na escola privada mais cara. A escola brasileira enfrenta uma crise profunda.
Se ela não é completamente desastrosa, devemos agradecer aos professores que, além de ensinar, educam. Aos professores que compreenderam que mais importante do que as notas é o olhar atento e acolhedor; que mais valioso do que simplesmente transmitir conteúdos é oferecer escuta; que, para além do teatro cotidiano da sala de aula, existem crianças e adolescentes enfrentando crises familiares, emoções descontroladas, cobranças excessivas, luto, insegurança e incompreensão, muitas vezes em silêncio.
Infelizmente, aquilo que salva a escola é justamente o que frequentemente escapa à sua lógica burocrática: o pequeno, mas indispensável, grupo de professores que não se limita a cumprir regras; professores que compreendem que cuidar é mais importante do que simplesmente instruir, porque somente a partir do cuidado a educação pode florescer.
Do meu lugar de fala, posso afirmar com alguma propriedade que não precisamos de uma escola meramente instrutora, mas de uma escola verdadeiramente educadora — uma escola atenta, cuidadora e libertadora.
Roberto Peixoto é educador.


















