Natal de Luz Baixa
Primeiro Conto

Na véspera de Natal, o bairro do Salgado, ali perto da Rua São Vicente, parecia suspirar de calor. As casas simples, com portas abertas para puxar qualquer fiapo de vento, deixavam escapar cheiros de tempero, vozes misturadas e músicas diferentes vindo de cada rádio.
Na casa de Dona Marinalva, o clima era outro.
Ela ajeitava a mesa com cuidado, colocando o melhor prato, o melhor copo, o melhor que tinha — mesmo que não fosse muito. Desde a morte de João, o marido, tudo parecia mais pesado. Ele fora pedreiro conhecido na região, homem calado, mas disposto a ajudar quem precisasse. Gostava de chegar em casa com o rosto suado, o corpo cansado e um sorriso simples, como quem dizia: “Mais um dia vencido”. Um acidente numa obra arrancou ele da família de maneira brusca, deixando um vazio que Marinalva ainda não sabia nomear.
Pedro, o filho mais velho, 17 anos, trabalhava na Feira da Sulanca descarregando mercadorias. Era o que ajudava a pagar as contas que insistiam em chegar.
Lia, de 10 anos, nascera com uma deficiência motora na perna direita. Caminhava com dificuldade, arrastando um pouco o pé, mas nunca deixava de tentar. Demorava mais, cansava mais rápido, mas fazia questão de participar de tudo.
Naquela tarde, Lia estava sentada no chão da sala, a perna esticada para aliviar o incômodo, recortando estrelinhas de papel para enfeitar a parede.
— Mãe, será que Pedro volta antes de escurecer? — perguntou, concentrada nos recortes.
— Ele vem, minha filha. Ele sempre vem — respondeu Marinalva, tentando fazer a voz soar firme.
Mas, por dentro, o coração dela batia acelerado. Dinheiro curto, calor forte, saudade apertada. Era muita coisa para um peito só.
Quando o céu começou a mudar de cor, a energia caiu.
Um apagão daqueles rápidos, mas suficientes para deixar a casa mergulhada num escuro denso, em que o silêncio parece maior que o mundo.
— Ô, meu Deus… — murmurou Marinalva, sentindo a preocupação crescer.
Lia parou de recortar e olhou para a mãe.
— Vai voltar, né?
— Vai sim, minha filha. Essas coisas vivem acontecendo.
Mas o calor, sem ventilador e sem vento, parecia zombar da esperança dela.
Foi então que se ouviram passos apressados no beco.
A porta se abriu, e Pedro entrou, suado, exausto, mas com um brilho diferente nos olhos.
– Mãe… consegui.
Da mochila, tirou um ventilador usado, limpo, bem cuidado. Ele o posicionou num canto da sala e encaixou o plugue na tomada, mesmo sem energia.
— Eu sei que a senhora passa mal com esse calor — disse, um pouco sem jeito. — Juntei o que pude. Não é novo, mas é nosso.
Nesse exato momento, como se estivesse esperando apenas aquele gesto, a energia voltou. O ventilador começou a girar, primeiro devagar, depois com força, espalhando um vento fresco que parecia até inventado.
Lia soltou um riso espontâneo e se levantou devagar, apoiando-se na mesa.
— Agora a gente tem vento de Natal! — disse, abraçando o irmão pelas costas.
Marinalva levou a mão ao rosto. O choro veio, mas não era tristeza apenas — era alívio, era gratidão, era amor comprimido querendo sair. Uma lágrima escorreu, depois outra, até que ela permitiu, por alguns segundos, sentir tudo.
Ela puxou os dois filhos para um abraço só.
— Seu pai ficaria tão orgulhoso de vocês… — murmurou, a voz embargada.
Pedro respirou fundo.
— Mãe, eu também queria dizer outra coisa. O dono da barraca lá da feira falou que, se eu quiser, posso começar a ajudar na parte de vendas. É menos pesado… e paga melhor. Acho que… as coisas podem melhorar pra gente.
Marinalva fechou os olhos por um instante. Não era milagre. Não era riqueza. Mas era uma fresta aberta num ano que tinha sido quase todo escuro.
Lia apertou a mão da mãe.
— A gente vai ficar bem, né?
Marinalva olhou para os dois, para o ventilador velho girando barulhento, para as estrelinhas de papel coladas tortas na parede.
— Vamos sim, minha filha. Vamos sim.
Naquela noite, naquele pequeno pedaço do Salgado, o Natal não chegou com neve, árvore gigante ou presentes caros. Chegou em forma de vento, de coragem e de um futuro que, pela primeira vez em muito tempo, parecia um pouco mais possível.
*Claudio Soares é produtor cultural, pai de adolescente e acredita na magia do verdadeiro Natal

















