O Som do Que Faltava
Segundo Conto

No bairro Maurício de Nassau, a casa da família Albuquerque parecia saída de revista. Fachada iluminada, mesa impecável, pratos alinhados como se esperassem uma fotografia. Tudo organizado com o cuidado quase meticuloso de Eduardo, 45 anos, empresário respeitado e homem de hábitos rígidos.
Por fora, a casa era perfeita. Por dentro, havia um silêncio que não combinava com a data.
Lucas, 16 anos, observava tudo da porta do corredor. Não faltava nada material na vida dele — mas faltava algo que não se comprava. Ele e o pai pareciam viver em frequências diferentes. Eduardo falava em metas, horários, disciplina. Lucas falava em música, sensibilidade, tempo. Era como se cada um tocasse uma canção que o outro não conseguia ouvir.
A mãe, Helena, que normalmente fazia a ponte entre os dois, estava na casa da irmã ajudando com um problema de saúde. Pai e filho ficaram sozinhos naquela noite — e isso deixava o ar ainda mais pesado.
Lucas subiu para o quarto, pegou o violão e começou a tocar. A melodia era simples, construída em três acordes que se repetiam como ondas. No início, as notas saíam tímidas, quase hesitantes, mas aos poucos ganhavam firmeza, como se ele estivesse reunindo coragem para dizer algo que não cabia em palavras.
Eduardo ouviu o som vindo do andar de cima e parou sem perceber. Aquela sequência de acordes… havia algo familiar ali. Não era a música em si — era o sentimento. Ele próprio tocava algo parecido quando era adolescente, antes que a vida o empurrasse para longe de tudo que não fosse trabalho e responsabilidade.
A melodia subiu um pouco, depois desceu, num movimento que parecia um pedido. Um pedido de atenção. De espaço. De escuta.
No meio da música, Lucas errou uma nota. Um erro pequeno, quase imperceptível, mas que fez Eduardo sentir um aperto no peito. Era um erro humano, vulnerável — e talvez fosse isso que o tocava tanto. O filho estava tentando. Tentando se expressar. Tentando existir ali dentro daquela casa perfeita demais.
Foi por isso que Eduardo subiu as escadas devagar, guiado não pela curiosidade, mas por algo mais profundo: a sensação de que, se não ouvisse aquele momento, perderia algo importante entre eles.
Quando chegou à porta do quarto, a energia caiu. Um apagão rápido, deixando tudo na penumbra. Lucas parou de tocar.
— Pai? — perguntou, surpreso ao vê-lo ali.
— Eu… estava ouvindo — disse Eduardo, com uma sinceridade que ele mesmo estranhou. — A sua música. Ela… me lembrou algo.
Lucas segurou o violão com mais força.
— Eu achei que o senhor não ligava.
Eduardo respirou fundo.
— Eu não sou bom em mostrar que ligo. Mas eu ligo. Muito mais do que parece.
Lucas desviou o olhar.
— Às vezes eu sinto que o senhor não me enxerga de verdade.
A energia voltou, iluminando o quarto de uma vez. Mas o que realmente clareou foi o silêncio que veio depois — um silêncio cheio de possibilidade.
Eduardo se aproximou.
— Filho… quando eu tinha a sua idade, eu tocava algo parecido. Era a única coisa que me fazia sentir que eu podia ser eu mesmo. Mas a vida foi apertando, e eu fui deixando isso pra trás. Talvez… talvez eu tenha deixado coisas demais pra trás.
Lucas piscou, surpreso.
— O senhor tocava?
— Tocava. Mal, mas tocava — disse Eduardo, com um sorriso tímido. — E hoje, ouvindo você… eu percebi que sinto falta disso. E sinto falta de estar perto de você também.
Lucas respirou fundo, emocionado.
— Eu só queria que o senhor me ouvisse.
Eduardo apontou para o violão.
— Então… me deixa ouvir agora.
Lucas sentou-se na beira da cama e recomeçou a melodia. Desta vez, Eduardo sentou ao lado, em silêncio, realmente ouvindo — não apenas o som, mas o filho. A música cresceu, ganhou corpo, ganhou verdade. E quando Lucas terminou, Eduardo colocou a mão no ombro dele.
— Obrigado por me mostrar o que eu não via.
Lucas sorriu, pequeno, mas sincero.
— Obrigado por querer ver.
Lá embaixo, as luzes de Natal piscavam como se celebrassem algo que só aquela casa sabia: pai e filho, finalmente, encontrando um ponto de encontro. Não era um milagre de Natal — era algo mais real. Era o começo de uma nova música entre eles.
E, naquele ano, isso era o presente que faltava.
*Claudio Soares é produtor cultural, pai de adolescente e acredita na magia do verdadeiro Natal
















