
Mais uma vez, o Brasil recebe os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) e eles deveriam provocar muito mais reflexão do que comemoração. O país continua apresentando desempenho bastante inferior à média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em matemática, leitura e ciências. Mais preocupante ainda: nossa educação permanece praticamente estagnada há mais de uma década.
Não se trata de dizer que tudo está errado. Tampouco de desconhecer os avanços alcançados pelo Brasil na ampliação do acesso à escola. O próprio PISA reconhece que o país conseguiu reduzir parte da distância em relação às nações mais desenvolvidas nas últimas duas décadas, mesmo incorporando mais crianças e adolescentes ao sistema educacional. Esse é um mérito que precisa ser reconhecido.
Mas acesso não é aprendizagem, matrícula não é qualidade e aprovação não pode ser confundida com formação. É justamente aí que precisamos olhar para o PISA e para o IDEB com mais responsabilidade. O PISA nos incomoda porque revela o que ainda não conseguimos ensinar
No PISA 2025, apenas 28% dos estudantes brasileiros alcançaram pelo menos o nível básico de proficiência em matemática, contra 65% na média da OCDE. Em leitura, foram 49%, contra 69% na OCDE; em ciências, 48%, contra 74%. Esses números deveriam ser suficientes para interromper qualquer discurso triunfalista.
O problema não é simplesmente “ficar mal no ranking”. O problema é que uma parcela muito grande dos nossos jovens chega aos 15 anos sem dominar conhecimentos e competências fundamentais para interpretar informações, resolver problemas, argumentar, tomar decisões e participar plenamente da sociedade. E existe uma outra dimensão ainda mais grave: a desigualdade.
No Brasil, a diferença de desempenho em ciências entre os 25% mais favorecidos socioeconomicamente e os 25% menos favorecidos chegou a 96 pontos, acima da diferença média de 85 pontos observada na OCDE. social é discutir apenas metade do problema.Isso significa que discutir qualidade da educação brasileira sem discutir desigualdade
E o IDEB? Comemorar o quê?
O IDEB 2025 apresentou crescimento. Nos anos iniciais do ensino fundamental, o índice das redes públicas e privadas passou de 6,0, em 2023, para 6,3. Nos anos finais, de 5,0 para 5,3. No ensino médio, de 4,3 para 4,5. Na rede pública, especificamente, os índices passaram de 5,7 para 6,1 nos anos iniciais; de 4,7 para 5,0 nos anos finais; e de 4,1 para 4,3 no ensino médio.
Sim, há avanço. E todo avanço deve ser reconhecido. Mas é preciso perguntar: avançamos para onde? Uma nota maior no IDEB significa necessariamente que estamos formando jovens preparados para a vida, para o trabalho, para a cidadania, para a universidade e para os desafios de uma sociedade cada vez mais complexa?
A resposta não pode ser dada apenas pelo número do índice. O próprio IDEB é construído a partir da combinação entre aprovação escolar e desempenho em língua portuguesa e matemática. Portanto, ele é um indicador importante, mas não representa sozinho toda a qualidade da educação.
Uma escola pode melhorar seu IDEB e continuar enfrentando problemas de infraestrutura, desigualdade, evasão, saúde emocional dos estudantes, formação docente, participação das famílias, inclusão, violência, aprendizagem profunda e desenvolvimento de outras dimensões fundamentais. É aqui que mora a contradição.
A contradição das comemorações
Tenho acompanhado, recentemente, manifestações de secretários de Educação comemorando resultados do IDEB como se eles fossem a comprovação definitiva de que a educação municipal alcançou excelência. Não vejo problema em comemorar.O problema começa quando comemoramos o indicador e esquecemos o aluno. O resultado de uma avaliação deveria ser ponto de partida para novas perguntas:
Onde estão os estudantes que ficaram para trás? Quais escolas apresentam maiores dificuldades? Quais grupos sociais estão sendo prejudicados? O que estamos fazendo para reduzir as desigualdades? Nossos professores estão tendo formação continuada de qualidade? A escola possui condições materiais e pedagógicas para ensinar?
Estamos formando leitores, pensadores, cidadãos e sujeitos capazes de aprender continuamente? Se não fizermos essas perguntas, corremos o risco de transformar a avaliação em propaganda.
Nem PISA, nem IDEB devem ser tratados como finalidade Há outro equívoco que precisamos evitar. Não podemos transformar o PISA em um campeonato internacional nem o IDEB em uma competição entre municípios.
Educação não é corrida de Fórmula 1. Uma boa educação não pode ser reduzida a uma posição em ranking. Da mesma maneira, uma nota do IDEB não pode se transformar em troféu político. Avaliações são instrumentos. Servem para diagnosticar, comparar, identificar problemas, orientar políticas públicas e acompanhar resultados.
A finalidade da educação é outra. A finalidade é garantir aprendizagem significativa, desenvolvimento humano, cidadania, autonomia intelectual, inclusão, equidade e participação social. Precisamos, portanto, de uma educação que tenha qualidade acadêmica e qualidade social.
O que precisamos fazer? O primeiro passo é abandonar a cultura da comemoração automática e construir uma cultura de responsabilidade pelos resultados. Precisamos fortalecer a alfabetização e a leitura desde os primeiros anos. Uma criança que não aprende a ler e interpretar adequadamente terá dificuldades em praticamente todas as demais áreas.
Precisamos também reconstruir a aprendizagem matemática. Não basta ensinar fórmulas. É necessário ensinar o estudante a pensar matematicamente, resolver problemas, interpretar dados e utilizar o conhecimento em situações concretas.
Precisamos investir seriamente na formação continuada dos professores. Não formação burocrática, baseada apenas em palestras ocasionais, mas processos permanentes, vinculados às necessidades reais da sala de aula.
Precisamos valorizar o professor. Precisamos acompanhar individualmente os estudantes que apresentam dificuldades. Precisamos combater a evasão e o abandono. Precisamos enfrentar as desigualdades sociais que chegam diariamente aos portões das escolas. Precisamos melhorar as condições de trabalho dos profissionais da educação.
Precisamos utilizar tecnologia e inteligência artificial com responsabilidade, sem permitir que a tecnologia substitua aquilo que é essencialmente humano: o professor, a relação pedagógica, o diálogo, a criatividade, a ética e o pensamento crítico. E precisamos construir sistemas municipais e estaduais capazes de utilizar os dados das avaliações para intervir pedagogicamente, e não apenas para produzir gráficos e apresentações.
O aluno precisa voltar para o centro Talvez essa seja a principal reflexão que PISA e IDEB deveriam provocar. Por trás de cada percentual existe uma criança. Por trás de cada média existe um adolescente. Por trás de cada índice existe uma história de vida.
Não podemos aceitar que um estudante seja considerado “bem-sucedido” porque foi aprovado quando, na realidade, não aprendeu aquilo que deveria aprender. Da mesma forma, não podemos considerar fracassada uma escola simplesmente porque seu indicador não cresceu como esperado sem compreender as condições sociais, econômicas e pedagógicas em que ela trabalha.
Qualidade educacional exige resultado, mas exige também equidade. Exige aprendizagem, mas exige condições para aprender. Exige avaliação, mas exige intervenção. Exige cobrança, mas exige apoio. Exige responsabilidade dos gestores, mas exige também valorização dos professores.
O PISA nos mostra que o Brasil continua distante de uma educação de alto desempenho. O IDEB mostra que houve avanços importantes em 2025. As duas informações podem ser verdadeiras simultaneamente. E é justamente essa leitura que precisamos fazer.
Não podemos desprezar o avanço do IDEB, mas também não podemos utilizá-lo para esconder as fragilidades reveladas pelo PISA. O Brasil não precisa escolher entre comemorar ou criticar. Precisa avaliar, reconhecer os avanços, admitir as fragilidades e agir. A pergunta mais importante não é qual foi nossa posição no ranking.
Também não é apenas qual foi a nota do nosso município. A pergunta é: O que nossos estudantes estão efetivamente aprendendo? E, sobretudo: Estamos garantindo a todos eles o direito de aprender? Se a resposta ainda for “não”, então temos muito trabalho pela frente.
Porque educação de qualidade não é aquela que apenas melhora o indicador. É aquela que transforma a vida dos estudantes e reduz as desigualdades sociais. E esse deve ser o nosso compromisso: construir uma escola que não apenas aprove alunos, mas que realmente os ensine; que não apenas entregue diplomas, mas forme cidadãos; que não apenas produza números, mas produza oportunidades.
Nem PISA, nem IDEB como troféus. PISA e IDEB como instrumentos para enxergarmos a realidade, corrigirmos os caminhos e garantirmos aquilo que está previsto como direito: uma educação pública de qualidade social para todos.

É professor universitário com experiência no ensino de graduação e pós-graduação, tendo lecionado em instituições como a Faculdade Alpha, FAFICA, FALPE e o Centro Universitário Maurício de Nassau – unidade Caruaru.
Autor de dois livros voltados à área da educação: “Quando a Escola DIZ e NÃO FAZ: O outro discurso da escola” (Editora Schoba, 2019 – ISBN 978-85-69630-30-2) e “Sala de Aula e Práticas Pedagógicas: Compreendendo as Diretrizes Legais e suas Implicações na Prática Docente” (Editora Fontinele, 2024 – ISBN 978-65-6871-651-8), contribui com reflexões relevantes sobre o cotidiano escolar e os desafios pedagógicos.
















