Luto na Cultura: Falece Ivete Cairo, Patrimônio Vivo e Pioneira de Caruaru

6 de julho de 2026

Caruaru amanheceu mais triste nesta segunda-feira (06). Faleceu, aos 84 anos, Ivete Cairo, uma das maiores expressões da cultura popular do Agreste e reconhecida como Patrimônio Vivo de Caruaru. Sua partida representa uma perda imensurável para a Capital do Forró, cidade que ela tanto amou, defendeu e ajudou a moldar artisticamente.

O corpo está sendo velado no Cemitério Dom Bosco e o Sepultamento será às 10h amanhã no Cemitério São Roque.

Ivete não foi apenas uma testemunha da história caruaruense; ela foi protagonista. Uma mulher à frente do seu tempo, que quebrou barreiras ao se tornar uma das pioneiras a tocar sanfona na cidade e a primeira mulher a atuar como locutora em Caruaru. Sua trajetória foi marcada pela luta incessante pela valorização da música, da cultura e pela conquista de mais espaços para as mulheres.

Em uma entrevista marcante concedida ao BPN, ainda na Pandemia, Ivete relembrou com orgulho suas raízes e a forte ligação de sua família com as tradições locais.

Uma Herança de Sangue: O Legado de Zé de Inês

A paixão pelos festejos de rua corria nas veias de Ivete. Filha do lendário carnavalesco José Virgínio, popularmente conhecido como Zé de Inês (ou Zé de Nei), ela carregou essa herança com maestria. Na entrevista ao BPN, ela explicou com carinho a origem do famoso apelido do pai:

“Por motivo da mãe dele se chamar Inês, aí ficou… Todo mundo só chamava José de Inês. E ele sempre foi um carnavalesco de sangue mesmo, tava nas veias dele ser carnavalesco. Onde ele envolveu todos os filhos dele (…) e formou-se um bloco que até hoje está na memória do povo.”

Durante décadas, Ivete foi a mente criativa por trás da confecção dos enfeites de Carnaval e de São João da cidade. Como funcionária pública da Fundação de Cultura e Turismo, ela colecionou e criou memórias inesquecíveis nos carnavais de rua desde as décadas de 1950 e 1960.

Seu nome está eternamente ligado a agremiações e blocos tradicionais como o Clube Misto Vassourinhas em Folia, o Bloco dos Motoristas, o dos Sapateiros, o tradicional Bloco do Cacho de Coco e As Divinas e Maravilhosas. Toda essa dedicação rendeu a ela uma justa homenagem no Carnaval de Caruaru em 2019.

“Com dinheiro ou sem dinheiro, o bloco estava na rua”

Ao ser questionada sobre as lembranças daqueles tempos de folia pura e espontânea, Ivete não escondeu a nostalgia de uma época de ouro em que a paixão pela cultura superava qualquer obstáculo financeiro:

“Sabe, dá tanta saudade… Que os blocos não tinham hora para recolher nem para começar, tá? Era a noite, era o dia inteiro. Com dinheiro ou sem dinheiro… Podia ninguém ajudar, mas o bloco estava na rua para mostrar ao povo que a família de Zé de Inês é foliã e nunca deixou de ser.”

Demonstrando que a idade nunca apagou sua chama artística, Ivete soltou a voz durante a entrevista e cantou versos que ecoam a saudade e o amor pelo Carnaval de rua e por seu pai:

“E foi no Carnaval que passou / A onda levou o meu amor… / Eu trabalhei o ano inteiro / Comprei minha fantasia / Mas quando chegou o Carnaval / A onda levou Maria…”

“Ai, que saudade de Zé de Inês desfilando na avenida… Saudade… O maior folião que eu encontrei na vida.”

Do Pastoril às Grandes Mudanças no São João

Além do Carnaval, Ivete foi pioneira no Pastoril, manifestação cultural natalina trazida ao Brasil no século 19 e que ganhou forte identidade no Nordeste.

No São João, Ivete viveu a era de ouro dos bairros. Participou ativamente das festividades organizadas pelas rádios Difusora e Cultura, que incentivavam a ornamentação de ruas e palhoças. Ela acompanhou de perto o nascimento dos primeiros “Concursos de Quadrilhas” na Praça Coronel João Guilherme (que mais tarde viraria o “Campeonato de Quadrilhas na Roça”) e esteve presente nas caravanas históricas de Ivan Bulhões (“São João Sem Limites”) e Lídio Cavalcanti (“Agreste em Festa”).

Dona Ivete viu a festa crescer: da Avenida Rui Barbosa e Largo da Coletoria ao Festival de Fogueteiros, até a consolidação no Pátio de Eventos Luiz Gonzaga, a chegada das Drilhas e das Comidas Gigantes.

Multitalentosa: O amor de Ivete pela arte também a levou aos palcos. Na década de 1960, ela participou de peças teatrais ao lado de Diva Pacheco, inclusive com atuação na Nova Jerusalém, na Paixão de Cristo.

Um Legado Eterno

Quem conheceu Ivete Cairo sabe também de seus dilemas, limitações e angústias. mas vamos sempre recordar do seu sorriso no rosto. De sua essência vibrante, cantando e dançando entre os amigos.

Seu legado de talento, criatividade, e amor por Caruaru permanecerá vivo na memória de todos aqueles que reconhecem a importância de sua história para a cultura popular. O Blog BPN expressa as mais profundas condolências aos familiares, amigos e a todo o povo caruaruense.

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