Educação no Brasil: Sem Comparação. por Prof. Roberto Peixoto

30 de maio de 2026

Comparar os resultados da educação brasileira aos índices de países desenvolvidos tornou-se um hábito frequente nos debates públicos, nas redes sociais e até em algumas análises técnicas. No entanto, essa comparação, muitas vezes apresentada como simples métrica de desempenho, carrega uma profunda distorção estatística, social e moral.
Após décadas observando a realidade educacional brasileira em suas múltiplas camadas, torna-se impossível ignorar uma verdade evidente: o Brasil ainda luta para garantir condições mínimas de funcionamento em milhares de escolas. Exigir excelência plena de professores que diariamente enfrentam ausência de infraestrutura, insegurança e abandono institucional é cobrar o telhado de quem ainda tenta erguer as paredes.
Enquanto países desenvolvidos avançam em discussões sobre inteligência artificial, ensino personalizado, metodologias de alta performance e inovação tecnológica, o professor brasileiro continua enfrentando desafios muito mais elementares. Em inúmeras salas de aula do país, o educador não lida apenas com conteúdos pedagógicos. Ele enfrenta a fome do aluno, a vulnerabilidade social, a violência cotidiana, a defasagem de aprendizagem acumulada, o abandono emocional e a ausência de suporte familiar.
Mesmo assim, continua ensinando.
Essa talvez seja uma das maiores contradições da educação brasileira: o país exige resultados semelhantes aos das nações mais desenvolvidas sem oferecer condições minimamente equivalentes. Ignora-se que desempenho educacional não nasce apenas de talento individual ou esforço isolado. Ele é resultado direto de investimento contínuo, estabilidade social, valorização profissional e políticas públicas consistentes ao longo de décadas.
Não existe meritocracia verdadeira quando os pontos de partida são radicalmente desiguais. Cobrar o mesmo desempenho sem garantir as mesmas oportunidades não é busca por excelência. É apenas uma forma sofisticada de perpetuar injustiças históricas.
O problema torna-se ainda mais grave quando parte da sociedade transfere exclusivamente ao professor a responsabilidade pelos baixos índices educacionais. O docente brasileiro, muitas vezes, tornou-se o último elo de sustentação social em comunidades marcadas pela pobreza e pela ausência do Estado. Em várias regiões do país, a escola não é apenas espaço de aprendizagem; é também local de acolhimento, alimentação, proteção emocional e esperança.
Ainda assim, os profissionais da educação seguem resistindo. Seguem formando cidadãos, reconstruindo trajetórias e impedindo que milhões de crianças e jovens sejam completamente abandonados pelas estruturas sociais.
Por isso, a discussão sobre educação precisa ultrapassar o campo superficial das críticas fáceis e dos rankings internacionais. O debate precisa chegar ao centro das políticas públicas nacionais. Educação não pode continuar sendo utilizada apenas como discurso eleitoral ou ferramenta retórica em campanhas políticas. Precisa ser tratada como prioridade estratégica de desenvolvimento nacional.
Valorizar o professor não significa apenas homenageá-lo em datas comemorativas. Significa garantir salário digno, formação continuada, estrutura adequada, segurança, apoio psicológico e condições reais de trabalho. Significa compreender que proteger o educador é proteger o futuro do próprio país.
O Brasil não transformará sua educação através de comparações injustas, mas sim por meio de investimentos sérios, planejamento de longo prazo e compromisso coletivo com a dignidade humana dentro das escolas.
Antes de comparar números, talvez seja necessário comparar realidades.

*Roberto Peixoto é educador na cidade de Caruaru e autor dos livros: “Quando a Escola DIZ e NÃO FAZ: O outro discurso da escola” (Editora Schoba, 2019 – ISBN 978-85-69630-30-2) e “Sala de Aula e Práticas Pedagógicas: Compreendendo as Diretrizes Legais e suas Implicações na Prática Docente” (Editora Fontinele, 2024 – ISBN 978-65-6871-651-8), contribui com reflexões relevantes sobre o cotidiano escolar e os desafios pedagógicos.

 

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