EDITORIAL – Frei Betto no ‘Provoca’: Uma voz sensata e urgente para cristãos e para a esquerda brasileira

6 de agosto de 2026

Foto: Nadja Kouchi – Acervo TV Cultura.

Em tempos marcados pelo ruído das redes sociais, pela polarização rasa e pela perda de referenciais éticos, ouvir Frei Betto é um exercício necessário de lucidez. Em sua recente participação no programa Provoca, da TV Cultura, o frade dominicano, escritor e militante social deu uma verdadeira aula de coerência, mantendo a firmeza de quem atravessou os porões da ditadura militar sem deixar que o ódio corrompesse sua vocação humanista.

Sua fala ressoa como um chamado urgente e honesto — direcionado tanto aos que se declaram seguidores de Jesus de Nazaré quanto àqueles que militam no campo da esquerda e do socialismo no Brasil.

1. Para os seguidores de Jesus: Resgatar o Evangelho das garras do clericalismo e do partidarismo

Frei Betto nos lembra de algo fundante, mas frequentemente esquecido: Jesus de Nazaré não foi um alienado político. A mensagem do Evangelho e a atuação de Jesus contavam com uma profunda dimensão social e crítica contra as estruturas de opressão da sua época.

Ao mesmo tempo em que ressalta o caráter político de Jesus, o frade faz alertas indispensáveis para o tempo presente:

  • A laicidade como valor ético: A política deve se manter laica e a religião não deve ser transformada em balcão partidário. A verdadeira fé inspira a defesa dos mais vulneráveis, em vez de servir como instrumento de poder ou dominação.

  • O aprendizado com as periferias: Com a honestidade que lhe é característica, Frei Betto aponta por que o movimento evangélico cresce nas periferias enquanto a Igreja Católica recua. As igrejas evangélicas souberam criar redes reais de acolhimento e solidariedade comunitária — um papel no qual a estrutura católica frequentemente falha devido ao clericalismo e ao afastamento do povo.

Ser seguidor de Jesus, com exceção do campo ultraconservador e extremistas, na visão coerente de Frei Betto, exige abandonar discursos moralistas e voltar ao chão da vida cotidiana, onde o amor ao próximo se traduz em justiça social e acolhimento comunitário.

2. Para o campo da esquerda: Voltar às bases e superar o encanto dos algoritmos

Para a esquerda brasileira, o diagnóstico do frade dominicano é direto e sem rodeios. Quem acompanhou sua trajetória no movimento popular nas décadas de 1970 e 1980 percebe a lucidez com que ele avalia o momento atual.

  • O afastamento das periferias: A esquerda precisa urgentemente se reatualizar e reatar seus laços com a classe trabalhadora e com as periferias urbanas. O trabalho de base foi substituído, em muitos casos, pela burocracia institucional ou pelo debate abstrato.

  • A armadilha das mídias digitais: Frei Betto adverte que o ecossistema digital foi desenhado para estimular reações emocionais, fúria e consumo, em detrimento da reflexão racional e do diálogo organizativo. A militância não pode se restringir aos “likes” e aos cancelamentos; a transformação real acontece no convívio, na escuta e no trabalho comunitário.

3. “O ódio é um veneno”: A lição sobre perdão, memória e justiça

Um dos momentos mais tocantes e profundos da entrevista diz respeito ao resgate da memória da ditadura militar e à vivência da prisão e da tortura — lembrando o impacto devastador que esse período deixou em companheiros como Frei Tito.

Sobre a dor e as cicatrizes do regime militar, Frei Betto deixou uma frase que deveria ser gravada na memória do país:

“O ódio é um veneno que você toma esperando que o outro morra.”

Ele recusa a vingança pessoal e o ressentimento, mas faz uma distinção crucial entre perdão individual e justiça pública:

  1. Sem Justiça não há Paz: O perdão pessoal não substitui a responsabilidade do Estado. Os crimes contra a humanidade cometidos na ditadura deveriam ter sido julgados e sancionados.

  2. A profecia de Isaías: Citando a tradição profética de 700 a.C., Frei Betto reafirma que “A Paz é filha da Justiça”. A verdadeira paz social não nasce da corrida armamentista ou do “equilíbrio de forças” defendido por chefes de Estado, mas sim da superação da desigualdade e da garantia de direitos para todos.

Uma voz que aponta o caminho

Sem nunca ter se filiado a partidos políticos — exercendo sua atuação pública como uma verdadeira missão pastoral e social, como fez na implantação do Fome Zero —, Frei Betto demonstra que é possível manter a fidelidade aos princípios sem se render aos pragmatismos estéreis.

Sua presença no Provoca não foi apenas uma entrevista memorável; foi um lembrete de que a democracia se constrói com participação, memória, voto consciente e, acima de tudo, um compromisso inegociável com a dignidade dos mais pobres.

Uma leitura urgente para quem quer pensar o Brasil com a mente aberta e o coração voltado para a justiça.

ESTÁ GOSTANDO DO CONTEÚDO? COMPARTILHE

Facebook
Twitter
WhatsApp

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

ULTIMAS NOTÍCIAS

7 de agosto de 2026

A Cultural Livraria e Cafeteria, em Caruaru, promove no próximo dia 30 de agosto (domingo), às 15h, um encontro com o escritor e historiador Sivaldo ...

6 de agosto de 2026

Em tempos marcados pelo ruído das redes sociais, pela polarização rasa e pela perda de referenciais éticos, ouvir Frei Betto é um exercício necessário de ...

6 de agosto de 2026

Após o sucesso de sua primeira edição, o Rolê REC’n’Play retorna ao Agreste pernambucano por mais um ano, marcado para acontecer nos dias 13, 14 ...

6 de agosto de 2026

Entre os dias 16 e 19 de setembro de 2026, a cidade do Recife sediará o XIII Colóquio Internacional Paulo Freire, promovido pelo Centro Paulo ...

Visão Geral de Privacidade

Este site utiliza cookies para que possamos lhe proporcionar a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas no seu navegador e desempenham funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.