
Em tempos marcados pelo ruído das redes sociais, pela polarização rasa e pela perda de referenciais éticos, ouvir Frei Betto é um exercício necessário de lucidez. Em sua recente participação no programa Provoca, da TV Cultura, o frade dominicano, escritor e militante social deu uma verdadeira aula de coerência, mantendo a firmeza de quem atravessou os porões da ditadura militar sem deixar que o ódio corrompesse sua vocação humanista.
Sua fala ressoa como um chamado urgente e honesto — direcionado tanto aos que se declaram seguidores de Jesus de Nazaré quanto àqueles que militam no campo da esquerda e do socialismo no Brasil.
1. Para os seguidores de Jesus: Resgatar o Evangelho das garras do clericalismo e do partidarismo
Frei Betto nos lembra de algo fundante, mas frequentemente esquecido: Jesus de Nazaré não foi um alienado político. A mensagem do Evangelho e a atuação de Jesus contavam com uma profunda dimensão social e crítica contra as estruturas de opressão da sua época.
Ao mesmo tempo em que ressalta o caráter político de Jesus, o frade faz alertas indispensáveis para o tempo presente:
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A laicidade como valor ético: A política deve se manter laica e a religião não deve ser transformada em balcão partidário. A verdadeira fé inspira a defesa dos mais vulneráveis, em vez de servir como instrumento de poder ou dominação.
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O aprendizado com as periferias: Com a honestidade que lhe é característica, Frei Betto aponta por que o movimento evangélico cresce nas periferias enquanto a Igreja Católica recua. As igrejas evangélicas souberam criar redes reais de acolhimento e solidariedade comunitária — um papel no qual a estrutura católica frequentemente falha devido ao clericalismo e ao afastamento do povo.
Ser seguidor de Jesus, com exceção do campo ultraconservador e extremistas, na visão coerente de Frei Betto, exige abandonar discursos moralistas e voltar ao chão da vida cotidiana, onde o amor ao próximo se traduz em justiça social e acolhimento comunitário.
2. Para o campo da esquerda: Voltar às bases e superar o encanto dos algoritmos
Para a esquerda brasileira, o diagnóstico do frade dominicano é direto e sem rodeios. Quem acompanhou sua trajetória no movimento popular nas décadas de 1970 e 1980 percebe a lucidez com que ele avalia o momento atual.
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O afastamento das periferias: A esquerda precisa urgentemente se reatualizar e reatar seus laços com a classe trabalhadora e com as periferias urbanas. O trabalho de base foi substituído, em muitos casos, pela burocracia institucional ou pelo debate abstrato.
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A armadilha das mídias digitais: Frei Betto adverte que o ecossistema digital foi desenhado para estimular reações emocionais, fúria e consumo, em detrimento da reflexão racional e do diálogo organizativo. A militância não pode se restringir aos “likes” e aos cancelamentos; a transformação real acontece no convívio, na escuta e no trabalho comunitário.
3. “O ódio é um veneno”: A lição sobre perdão, memória e justiça
Um dos momentos mais tocantes e profundos da entrevista diz respeito ao resgate da memória da ditadura militar e à vivência da prisão e da tortura — lembrando o impacto devastador que esse período deixou em companheiros como Frei Tito.
Sobre a dor e as cicatrizes do regime militar, Frei Betto deixou uma frase que deveria ser gravada na memória do país:
“O ódio é um veneno que você toma esperando que o outro morra.”
Ele recusa a vingança pessoal e o ressentimento, mas faz uma distinção crucial entre perdão individual e justiça pública:
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Sem Justiça não há Paz: O perdão pessoal não substitui a responsabilidade do Estado. Os crimes contra a humanidade cometidos na ditadura deveriam ter sido julgados e sancionados.
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A profecia de Isaías: Citando a tradição profética de 700 a.C., Frei Betto reafirma que “A Paz é filha da Justiça”. A verdadeira paz social não nasce da corrida armamentista ou do “equilíbrio de forças” defendido por chefes de Estado, mas sim da superação da desigualdade e da garantia de direitos para todos.
Uma voz que aponta o caminho
Sem nunca ter se filiado a partidos políticos — exercendo sua atuação pública como uma verdadeira missão pastoral e social, como fez na implantação do Fome Zero —, Frei Betto demonstra que é possível manter a fidelidade aos princípios sem se render aos pragmatismos estéreis.
Sua presença no Provoca não foi apenas uma entrevista memorável; foi um lembrete de que a democracia se constrói com participação, memória, voto consciente e, acima de tudo, um compromisso inegociável com a dignidade dos mais pobres.
Uma leitura urgente para quem quer pensar o Brasil com a mente aberta e o coração voltado para a justiça.
















