
Sabe aquele tipo de reencontro que a gente sabe que vai ser histórico antes mesmo do primeiro acorde? Foi exatamente isso o que aconteceu no Polo Azulão neste São João. Em uma conversa descontraída com a nossa equipe nos bastidores, o grande precursor do Hip Hop em Caruaru, Fabiano Bezerra da Silva, nosso ilustre Bira Setenove, fez questão de abrir o coração. Logo de cara, veio o reconhecimento que muito nos orgulha: Bira destacou o papel fundamental do blog BPN como o melhor espaço da cidade para dar voz, força e visibilidade genuína à cultura da nossa terra. Para nós, meu compadre, a satisfação é toda nossa em acompanhar essa caminhada!
E bota caminhada nisso. São 23 anos de carreira de um projeto que enfrentou barreiras, quebrou preconceitos e provou que a batida da periferia e o chiado da sanfona falam a mesmíssima língua.
O laboratório na sala de casa e a resistência contra o preconceito
Para entender o tamanho do show que Caruaru presenciou no Polo Azulão, é preciso voltar no tempo, lá para o início dos anos 2000. Bira vinha da experiência com o Justice MCs, o primeiro grupo de Rap da cidade, que apostava em uma linha mais tradicional e gangster. Mas a cabeça do artista borbulhava com outra ideia: e se a gente colocasse o Forró dentro do Rap?
Foi aí que entrou em cena o parceiro de toda uma vida, o DJ Beto. “Bira me chamou e eu até estranhei no começo, mas topei fazer o laboratório”, relembrou Beto na entrevista. Sem grandes recursos na época, o primeiro disco de Bira e o Bando nasceu de forma totalmente caseira, gravado na sala de casa em um aparelho de MD. Só um ano depois o material foi levado para um estúdio para ser lapidado e masterizado.
Se hoje a mistura é aclamada, no começo o cenário foi de muita pedrada. O grupo enfrentou forte resistência e críticas pesadas dentro do próprio movimento Rap local de Caruaru por ousar mexer com a tradição. Mas a barreira começou a ruir quando o saudoso Valdi Santos — padrinho da filha mais velha de Bira e grande incentivador da banda — peitou o tradicionalismo e colocou o Hip Hop, pela primeira vez, no palco principal do São João de Caruaru. Uma ousadia que custou caro a Valdi na época, mas que plantou a pedra fundamental para que o trabalho do Bando prosperasse.

Da Feira do Paraguai aos palcos com as referências nacionais
Com muita propriedade, Bira explicou a conexão profunda que existe entre a cultura urbana e a nordestina. “O Rap surgiu do repente, e o repente vem lá dos griôs do mundo antigo. A métrica e a semelhança são gigantescas”, pontuou o músico, lembrando que a musicalidade do grupo bebe tanto na fonte de GOG e Gabriel o Pensador quanto na de Jacinto Silva, Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga.
Essa bagagem musical foi moldada em um cenário curioso. Nos anos 90, antes da era da internet, Bira trabalhou na famosa Feira do Paraguai, em Caruaru, gravando e vendendo fitas cassete piratas. Longe de ser apenas um comércio, aquele garimpo era a forma de ter acesso ao Rap que vinha de Brasília e de São Paulo. Foi ali que ele descobriu o mestre GOG (Genival Oliveira Gonçalves) e o Câmbio Negro.
O mundo dá voltas e a arte premia quem persiste: hoje, Bira não só divide o palco com essas antigas referências da adolescência — como já fez em Caruaru a convite do próprio Gabriel o Pensador —, mas também possui parcerias gravadas e uma sólida relação de amizade com eles.

O futuro na sala de aula: Hip Hop como transformação social
Além dos palcos, a correria de Bira ganhou uma dimensão institucional gigantesca. Atualmente, o artista atua como representante da Escola Nacional de Hip Hop. O projeto, respaldado por uma lei federal recente, visa introduzir os quatro elementos da cultura Hip Hop (o Break, o Rap, o DJ e o Grafite) na grade curricular das escolas públicas municipais e estaduais de todo o país a partir do ano que vem.
A proposta vai direto na raiz dos problemas que a educação tradicional muitas vezes não consegue alcançar sozinha, combatendo de frente a evasão escolar e a vulnerabilidade social nas periferias.
Um reconhecimento necessário
Nós, que fazemos o blog BPN, não poderíamos fechar esta matéria sem registrar o nosso mais profundo respeito e admiração por toda a luta, suor e trajetória de Bira e de todos os que fazem o Bando. Em um mercado que muitas vezes esquece os seus precursores, ver essa resistência viva no palco do Polo Azulão é um sopro de esperança.
O movimento Hip Hop e, de forma muito especial, a figura dos DJs e MCs, vão muito além do entretenimento. Eles são agentes de salvação social. Quando a batida do DJ e a rima do poeta ocupam o espaço público ou a sala de aula, eles resgatam vidas, oferecem perspectiva e moldam uma juventude sadia, consciente e orgulhosa de suas origens. Longa vida a Bira e o Bando! Caruaru tem orgulho da história que vocês continuam escrevendo.

















