
Em uma entrevista coletiva e repleta de identidade, a instrumentista e cantora Bia Villa-Chan conversou com Janaína Oliveira, do Blog BPN, sobre suas raízes, a transição de carreira e a resistência contra o machismo na música.
O Tempero da Identidade Nordestina
Para Bia Villa-Chan, a essência de sua música está intrinsecamente ligada à sua origem. Quando questionada sobre o “tempero” essencial para sua arte ser considerada verdadeiramente nordestina, a artista apontou para a naturalidade: “É o sotaque que a gente já leva, já é meio que natural nosso”.
A instrumentista, que iniciou sua jornada musical aos 6 anos de idade com o bandolim, sob a influência de seu avô Heitor Villa-Chan, destaca que nascer e crescer no “berço” de grandes nomes da música nordestina torna o processo orgânico. “Você nascer num berço de Luiz Gonzaga, de Accioly Neto, do Quinteto Violado, Sandro Becker, Genival Lacerda… isso fica fácil”, afirmou.
Hoje, sua marca registrada é a guitarra, instrumento que utiliza para conectar o passado ao presente. “Tento traduzir na guitarra tudo aquilo que me foi passado enquanto criança, enquanto adolescente e agora adulta (…) Tento colocar minhas raízes nordestinas na guitarra. Hoje você escuta minha guitarra tocar, ou meu bandolim tocado, e sabe que é Bia quem está tocando”.
Entretenimento com Propósito e Identidade
Ao abordar o cenário musical atual, Bia fez uma distinção importante entre entretenimento e identidade artística. Ela destacou a importância da assinatura musical em um mercado onde, às vezes, os padrões se repetem.
Mesmo trabalhando com faixas de entretenimento, como o sucesso “Pix para Mim”, que ganhou projeção internacional em países como Suécia, Suíça, Portugal e Espanha, a artista reforça o compromisso com sua cerne. “Eu faço música entretenimento, mas você vai saber que ali tem cultura nordestina. Está ali o meu cerne, está ali a minha assinatura”, explicou Bia Villa-Chan.
Da Cirurgia para o Palco: O Poder da Decisão
Um dos momentos mais tocantes da entrevista foi quando a artista compartilhou sua corajosa decisão de mudar de carreira. Bia, que é cirurgiã bucomaxilofacial e tinha uma carreira promissora na odontologia, percebeu durante um período de doença onde residia sua verdadeira felicidade.
“Quando eu percebi que durante a minha doença, o fato de eu estar com meu instrumento na mão cantando me fazia mais feliz do que tudo aquilo que eu já tinha conquistado…” relembrou. O apoio familiar foi fundamental nessa transição. Ao questionar o marido e os filhos, ouviu: “Não quero ter nenhuma dentista frustrada em casa. Faça o que você quiser seguir e eu tô aqui para apoiá-la”.
Resistência e Exemplo no Meio Musical
Como mulher instrumentista em um ambiente que descreve como “muito machista”, Bia Villa-Chan falou sobre os desafios e o preconceito que enfrenta. Ela relatou já ter ouvido comentários misóginos e frases como “ela toca muito bem para uma mulher” ou “toca como um homem”.
A artista compartilhou uma situação absurda em que, devido à sua habilidade, internautas questionaram a veracidade de seus vídeos, sugerindo que fosse inteligência artificial. “Tirei prints das frases que recebo nas redes sociais (…) frases de ódio para dizer: ‘Poxa, ela é mulher e ela não pode estar no lugar que ela está'”.
Contra toda forma de ódio, Bia reafirma sua posição de resistência e seu desejo de inspirar outras mulheres. “Eu quero ser exemplo para as mulheres entenderem que elas devem ocupar os lugares que são delas (…) Não desistam, porque essas pessoas vão aparecer. O trabalho que incomoda o medíocre é sinal de que estamos no caminho certo”, declarou.
Um Dia de Celebração
A entrevista ocorreu no contexto da premiação que concedeu a Bia Villa-Chan o Prêmio Paixão Cultural – Troféu Diva Pacheco. Honrada em estar ao lado de pessoas que admira, a artista expressou sua alegria: “Recebendo o prêmio Diva Pacheco eu tenho uma certeza: que eu tô no caminho certo”.
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