
A cultura brasileira sempre foi construída pela transmissão de saberes. Mestres e mestras populares, artistas, educadores e fazedores de cultura mantêm viva a memória coletiva justamente porque acumulam tempo, experiência e dedicação. Ainda assim, em pleno 2026, seguimos convivendo com situações em que a velhice é tratada não como patrimônio, mas como suspeita.
Recentemente, ao analisar um projeto cultural apresentado por Arary Marrocos, de 88 anos, um parecer técnico levantou “questionamentos quanto à sua idade”, levantando dúvidas sobre a “saúde e vitalidade necessárias” para exercer a coordenação do projeto. A frase, aparentemente simples, revela um problema profundo: até que ponto nossa sociedade está preparada para reconhecer a potência intelectual, artística e humana das pessoas idosas?
Arary não é apenas uma artista veterana. Ao lado de Argemiro Pascoal, construiu uma das experiências mais importantes da cultura pernambucana. O Teatro Experimental de Arte tornou-se referência na formação de gerações de artistas do Agreste e foi reconhecido como Patrimônio Vivo de Pernambuco graças ao trabalho contínuo, obstinado e amoroso de um casal que dedicou a vida inteira ao teatro.
É importante dizer: ninguém está acima de avaliações técnicas. Projetos podem — e devem — ser analisados por critérios objetivos. O problema surge quando a idade passa a ser tratada como indício automático de incapacidade. Quando isso acontece, deixamos de falar de técnica e passamos a entrar no terreno perigoso do etarismo.
A experiência nunca deveria ser motivo de desconfiança. Pelo contrário. Em áreas como arte, educação e cultura, ela representa acúmulo simbólico, visão histórica, capacidade de mediação e maturidade criativa. O Brasil envelhece rapidamente, e será impossível construir políticas culturais democráticas sem aprender a respeitar os corpos e as trajetórias envelhecidas.
Existe também uma contradição dolorosa nisso tudo: celebramos nossos mestres em discursos, homenagens e datas comemorativas, mas muitas vezes os silenciamos nos espaços reais de decisão e produção. Transformamos artistas idosos em memória afetiva, quando ainda seguem vivos, atuantes e produzindo.
Arary Marrocos segue criando. Segue pensando teatro. Segue articulando pessoas, formando artistas e sonhando projetos. Recentemente, esteve em cena ao lado de mais de 30 jovens artistas no espetáculo VIVAS, sob direção de Nash Laila e Juliana Soares, encerrando o ciclo 2024 do CIT – Curso de Iniciação Teatral, mantido pelo Teatro Experimental de Arte há 64 anos. Não ocupava um lugar simbólico ou protocolar. Estava no palco, em processo criativo, compartilhando presença, escuta e experiência com uma nova geração de artistas. Aos 88 anos, continua fazendo exatamente aquilo que sempre fez: trabalhando pela cultura.
Talvez o que incomode não seja a idade. Talvez seja a permanência. A prova concreta de que a arte verdadeira não se aposenta.
Reconhecer a importância dos mestres não é um gesto de caridade. É um compromisso com a memória cultural do país. Porque quando um povo desacredita seus mestres, começa também a perder a memória de si mesmo.
*Por Fábio Pascoal – produtor cultural

















