“Toda pessoa guarda uma grande história”: Caco Barcellos encerra participação no REC’n’Play Caruaru com críticas à violência e exaltação à apuração na rua

14 de agosto de 2026

Na segunda parte de sua palestra no evento em Caruaru, o jornalista detalhou os bastidores da investigação no morro Dona Marta, fez um duro alerta sobre a violência do Estado e respondeu às perguntas do público sobre a desigualdade social no Brasil. Foto:

Após instigar a reflexão do público sobre a importância do olhar humano no jornalismo, Caco Barcellos encerrou sua participação no Rolê REC’n’Play, em Caruaru, aprofundando-se nos bastidores da profissão. Na segunda parte de sua fala, o jornalista detalhou os desafios do seu trabalho de imersão no morro Santa Marta (RJ) — que resultou no premiado livro “Abusado” — e fez críticas contundentes à forma como o Brasil lida com a violência e a desigualdade.

Dando continuidade à cobertura especial do evento, o portal BPN traz os principais pontos e revelações desta etapa final, onde a tecnologia, a segurança pública e as raízes do abismo econômico brasileiro foram colocadas em pauta.

Os bastidores da investigação e o valor da confiança

Para explicar a complexidade de atuar em áreas dominadas pelo crime, Caco compartilhou um dos maiores desafios do jornalismo investigativo: separar o relato histórico do crime em andamento. Ele relembrou as idas e vindas ao Santa Marta e a tensão de deixar claro aos traficantes que sua missão não era julgar ou delatar os planos presentes, mas sim contar a história daquele espaço sem emitir “juízos de valor”.

A confiança, segundo Barcellos, foi construída com paciência e método. Ele citou o caso de uma namorada de um dos chefes do morro que o ajudou a traçar a cronologia das mortes coletando “santinhos” fúnebres. A mesma informante causou choque ao revelar que era ela a responsável por buscar drogas na Bolívia. “Toda pessoa guarda consigo sempre uma grande história, se você tiver interesse para ouvir”, pontuou Caco, destacando a importância da escuta ativa e da curiosidade genuína.

Tecnologia não substitui a rua e o “porquê” das coisas

Caco fez uma dura crítica à cobertura jornalística “hightech” moderna — focada no uso de helicópteros e transmissões ao vivo distantes. Ele argumentou que as superproduções perdem o mais importante: a pergunta “Por quê?”.

Ao acompanhar o incêndio de um ônibus pela TV, de cima, o comunicador não consegue entender o motivo da revolta de quem está embaixo. O recado de Caco aos futuros comunicadores é claro: a tecnologia é válida, mas para descobrir a verdade sem preconceito de classe, o repórter precisa “descer”, gastar a sola do sapato, caminhar até a cena e conversar com as pessoas. Apenas na rua é possível constatar se a narrativa oficial bate com a realidade dos fatos e da perícia científica.

A banalização da violência de Estado

O ponto mais tenso do encerramento foi o manifesto do jornalista contra a violência institucional no Brasil, o país que mais mata a sua própria população, com foco central em negros e na juventude de periferia.

Caco destacou o comportamento de “tropas de elite” nas favelas, enfatizando que as justificativas de “legítima defesa” muitas vezes mascaram execuções sistemáticas com tiros na nuca. Ele alertou ainda para o fato de que, além dos agentes estatais, grande parte da sociedade aprova essa matança, votando em políticos que prometem mais repressão a pessoas de baixa renda e tratando a justiça de forma completamente seletiva — onde juízes e promotores jamais pisam no chão das comunidades onde a letalidade mais ocorre.

Interação e a essência do problema social

Ao abrir espaço para o público, Barcellos foi questionado sobre o que motivou uma informante do crime a contar sua história, e se havia solução para a desigualdade social no Brasil.

Fugindo de respostas fáceis, o repórter associou a estrutura do narcotráfico ao “capitalismo neoliberal radical”, buscando apenas o lucro extremo sem distribuição de renda. Sobre a desigualdade nacional, ele foi categórico ao apontar que debates identitários são fundamentais, mas a verdadeira origem do problema está no modelo econômico e na desvalorização do trabalhador. “Depende do valor do trabalho… e do salário”, cravou o jornalista, encerrando com um questionamento sobre grandes universidades globais que hoje atuam quase como especuladoras financeiras, esquecendo que o lucro não deveria superar o objetivo de produzir e distribuir inteligência para reduzir a miséria.

Assista ao desfecho! Para assistir à íntegra dessa segunda e última parte da palestra, com todas as histórias e a interação de Caco Barcellos com a plateia, dê o play no vídeo captado pela BPN TV:

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