
Vamos ser honestos: não adianta encher o código penal de leis se a cabeça de quem vive em sociedade continua no século passado. O estudo da Fundação Friedrich Ebert sobre as mortes de mulheres no Brasil escancara um dado terrível, mas ele aponta para uma falha anterior ao tiro ou à facada. O nosso fracasso real não está apenas na delegacia, está na sala de aula e na sala de estar.
Temos uma Lei do Feminicídio há dez anos. Temos delegacias da mulher. Temos medidas protetivas. E por que os números não param de subir, especialmente entre mulheres negras e periféricas?
Porque a lei pune o ato, mas só a educação previne a intenção.
O Brasil construiu um sistema educacional covarde. A escola brasileira se preocupa em ensinar a fórmula de Bhaskara, a tabela periódica e a gramática, mas foge da raia quando o assunto é ensinar que mulher não é propriedade. Estamos formando gerações de homens que sabem resolver equações complexas, mas que são analfabetos emocionais e morais, incapazes de lidar com a rejeição ou com a autonomia feminina.
O estudo mostra que as maiores vítimas são mulheres negras e pobres. Isso reflete um currículo escolar que, historicamente, apagou a identidade negra e nunca combateu de frente o racismo estrutural e o machismo. A escola que se omite em debater gênero e respeito é cúmplice da violência que acontece anos depois, dentro de casa.
Não podemos terceirizar para a polícia um problema que é pedagógico. O machismo é uma cultura aprendida. Ninguém nasce agressor; o menino aprende a ser violento observando o silêncio da escola e o exemplo torto dentro de casa. E se ele aprende, ele pode “desaprender”. Mas quem está ensinando o contrário?
Enquanto tratarmos educação sexual e debate de gênero nas escolas como “tabu” ou “ideologia”, continuaremos produzindo a matéria-prima do feminicídio.
Segurança pública enxuga o chão; educação fecha a torneira. Ou o Ministério da Educação assume que sua função é formar cidadãos civilizados — e não apenas mão de obra para o mercado —, ou continuaremos enterrando milhares de mulheres todos os anos, vítimas não apenas de seus parceiros, mas da nossa ignorância coletiva. A barbárie, meus caros, começa na falta de giz, não na falta de bala.

















