A Força que Vem do Interior: Festivais de Itacaré e Caruaru Tecem Nova Cartografia Cultural com a França. Por Fabio Pascoal

9 de novembro de 2025

Foto: Walton Ribeiro

Em um país de dimensões continentais e diversidade infinita como o nosso, insistir na centralização cultural é mais do que um desvio geográfico; é uma capitulação da imaginação. O pulsar da criação não acontece apenas nos grandes centros, mas vibra com vigor nos cantos mais diversos do território, onde ritmos, sotaques e corpos inscrevem suas próprias narrativas no chão. A descentralização, portanto, nunca foi simplesmente sobre distribuir eventos, mas sim um ato político e estético fundamental: o de reconhecer que a arte essencial floresce onde a vida, em toda a sua complexidade, mais fervilha.

Foto: Jorge Farias

Foi nesse solo fértil e longe dos holofotes tradicionais que dois festivais resistentes e visionários emergiram como faróis de uma nova cartografia cultural brasileira: o Festival de Dança Itacaré, na Bahia, e o FETEAG – Festival de Teatro do Agreste, em Caruaru, Pernambuco. Em 2025, ambos ascenderam ao patamar internacional ao integrarem a prestigiosa Temporada França-Brasil, tornando-se não apenas participantes, mas vetores dinâmicos de um rico e urgente intercâmbio.

Ao receberem em suas grades importantes obras francófonas, francesas e africanas, Itacaré e Caruaru fizeram muito mais do que apresentar espetáculos a um novo público. Eles arquitetaram uma poderosa arena de diálogo intercultural. Foi ali, nos palmontes do agreste e sob o clima tropical do litoral baiano, que se estabeleceu uma conversa de mão dupla: o sertão dialogou com o Saara, e a Mata Atlântica se reencontrou nos ritmos ancestrais da África. Essa troca, vibrante e orgânica, expandiu os limites da criação cênica nacional, desafiou formatos engessados e provou, de forma contundente, que a arte é o território mais fértil para a invenção do novo.

Foto: Jorge Farias

Ao aglutinarem culturas tão distintas, esses festivais se consolidaram como cadinhos de reinvenção. Eles demonstraram, na prática, que a identidade cultural não é uma estátua estática, mas um rio em constante fluxo, que se alimenta e se fortalece com afluentes diversos. Cada apresentação, cada workshop, cada debate acalorado após as cortinas se fecharem foi um passo concreto na recriação de territórios pela via afetiva da arte. Teceram-se, assim, fios invisíveis que formam um mapa afetivo, conectando a resistência do Agreste e a liberdade da Bahia às vanguardas europeias e à potência criativa do mundo franco-africano.

Foto: Jorge Farias

É com imensa alegria e um sentimento de missão cumprida que celebramos essa realização em sintonia. E é de coração aberto que, daqui de Caruaru, estendemos nosso convite ao Festival de Dança Itacaré: para que em 2026 possamos dançar juntos, mais uma vez, ainda mais conectados. Essa dança conjunta, esse ritmo compartilhado que atravessa biomas e une continentes, é a mais pura expressão de um princípio que carregamos: quando descentralizamos o poder, a cultura e a cena, não nos fragmentamos — pelo contrário, nos multiplicamos. E é nessa pluralidade infinita, que brota do interior, que encontramos a verdadeira força para seguir criando, resistindo e transformando o mundo, um passo de cada vez.

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