
Buscando abordar no brega um tópico sensível da vivência periférica, o cantor da comunidade do Ibura, Levi Oficial, lança “Mágoa Abaixo”, videoclipe sobre as consequências do uso de drogas. Com roteiro adaptado de um livro de Hélio Pajeú, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), produção apoia rede de cinematografia das periferias.
Em cena inspirada no filme Psicose (1960), de Alfred Hitchcock, o curta abre com o rosto de uma mulher morta no chão, iluminada por sirenes de polícia. A sequência, protagonizada pela atriz Natália Júlia, é um flashfoward da história do protagonista, um vendedor ambulante que se apaixona por uma dependente química.
“É muito importante que o brega volte a conversar sobre problemas do coletivo, como a miséria, a educação, os jogos de azar, o uso de drogas, não apenas sobre dores individuais, como amor, traição”, afirma Dominyque Regison, diretor do videoclipe. Ele comenta que adaptou o roteiro após frequentar um show de brega no qual encontrou crianças usando drogas. “Uma delas tremia tanto que não conseguia segurar um pratinho de comida”, relata.
Para Thales Martins, co-produtor do projeto, muitas pessoas da comunidade passam por histórias parecidas com a do clipe. “Quando alguém tem os pertences roubados por um familiar para comprar drogas, ela tem vergonha de contar o que aconteceu”, acredita. Para ele, o videoclipe é uma abordagem lúdica para entrar na casa do espectador e um primeiro passo para incentivá-lo a pedir ajuda.

Produção integra estudantes da UFPE e moradores de comunidades
O videoclipe é uma releitura do conto “Um Anjo Que Caiu do Céu”, de Lúcio Correia. Publicado na coletânea Literatura de Quinta – lançamento organizado pelo Professor Hélio Pajeú com contos, crônicas e poemas dos estudantes de Biblioteconomia, o texto é adaptado para as telas pela DomyFilms, produtora independente com apoio de estudantes da UFPE.
Na história original, os dois personagens são homens, mas a direção de elenco optou por alterar o gênero de um deles para alcançar um público que poderia rejeitar assistir a uma obra com protagonistas LGBTQIA+. As consequências da dependência química, no entanto, permanecem no centro da narrativa.
Na visão de Levi Oficial, mais que beneficiar o diálogo de pautas importantes para as comunidades, o videoclipe só existe em virtude do apoio incondicional dos moradores. “A gente pediu pra gravar uma cena no TI Joana Bezerra, mas a administração do terminal se recusou a dialogar”, depõe o cantor. “No final, quem ajudou foram os ambulantes, as lojinhas de esquina e o pessoal da comunidade que fazia questão de participar”, declara.
O projeto foi gravado durante oito dias em quatro comunidades de Recife e Jaboatão dos Guararapes e impulsionou o currículo de mais de 30 profissionais iniciantes na produção de curta-metragens, dentre assistentes de produção, auxiliares de filmagem e figurantes. O clipe ainda realiza uma parceria de divulgação com pequenos negócios autônomos das favelas, como barbearias, óticas e self-services.
















