Pra que ser presidente se posso mandar no Congresso? por João Américo de Freitas

1 de julho de 2025

Mesmo inelegível até 2030 e condenado em um processo eleitoral praticamente irreversível, Jair Bolsonaro nunca abandonou o desejo de voltar à presidência. Contudo, diante da iminente condenação no caso da tentativa de golpe de Estado, o ex-presidente parece ter mudado de rota. Agora, a estratégia não é mais disputar o Planalto — é controlar o Congresso Nacional.

Em um evento recente, esvaziado de culto popular e apoio expressivo, Bolsonaro foi claro: “Me deem isso que eu mudo o destino do Brasil. E digo mais: nem preciso ser presidente.” Esse “isso” a que se refere é o controle de, no mínimo, 50% do Congresso Nacional — Câmara e Senado. Com essa base, ele acredita que poderá emplacar sua pauta política e, acima de tudo, proteger a si mesmo.

O protagonismo do Congresso, nos últimos anos, cresceu exponencialmente. Hoje, concentra poder, influência, visibilidade e, sobretudo, dinheiro — via emendas parlamentares. Assim, para Bolsonaro, controlar o Congresso não é apenas uma saída para tentar restaurar seus direitos políticos, mas uma tática para continuar presente na vida pública sem precisar de um cargo formal.

Essa tentativa de hegemonia legislativa tem ainda outro propósito: realizar o antigo sonho — dele e de seus aliados — de promover o impeachment do ministro Alexandre de Moraes. Ou, como externado de maneira desavergonhada por seu fiel escudeiro, o pastor Silas Malafaia: “Se isso aqui fosse um país sério, ele tomava um impeachment e ia para cadeia.”

O problema é que, depois de Moraes, quem mais estaria na mira? Você? Seu pai, sua mãe, seu vizinho? Qualquer um que pense diferente pode se tornar o próximo inimigo da “pátria, de Deus e da família”. E, nesse delírio autoritário, o direito de discordar vira motivo de perseguição.

A sanha golpista, na verdade, nunca cessou. Ela está viva, ativa, escancarada. Grita-se aos quatro ventos. Alimenta-se de mitos, medos e fantasias de um país que só existiria sob o comando de uma única verdade absoluta. Mas a história mostra: só a democracia é capaz de vencer o golpismo. Não com silêncio ou indiferença, mas com firmeza, vigilância e participação.

O Brasil é maior do que qualquer projeto pessoal de poder. E a democracia, por mais frágil que pareça, continua sendo a única saída possível para todos nós.

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